Agenda

01/02/2018

Edital de Ocupação 2017/2018 – Exposição de Chico Dantas

A Usina Cultural Energisa, desde sua criação em 2003, tem sido palco de grandes eventos, como o Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport), Prêmio Energisa de Artes Visuais, entre outros. E a Usina não para. Uma programação mensal com projetos permanentes como Usina da Música, Domingo na Usina, Violadas, e espaços como a Galeria de Arte, Galeria Alexandre Filho, Livraria da Usina, Espaço Energia e Café da Usina, atraem diariamente um público interessado em apreciar shows, concertos, exposições, lançamentos de livros, cinema, teatro.

Desde 2016 retomamos a ocupação da galeria de arte da Usina com uma série de exposições, coletivas e individuais, com destaque para a produção local e propondo o reconhecimento desses artistas, notadamente daqueles talentos surgidos no Arte na Empresa, programa de exposições realizado ininterruptamente pela Energisa, na Paraíba, desde 2008, nas cidades de Patos, Campina Grande e João Pessoa.

As exposições desta temporada “local” se estenderão até meados de 2018, sendo a galeria ocupada periodicamente por coletivas e individuais, de artistas convidados ou selecionados pelo Edital de Ocupação Artes Visuais 2017-2018, da Usina Cultural Energisa, numa realização do Ministério da Cultura (Lei Rouanet) com o patrocínio da Energisa Paraíba. Com essa iniciativa, o público tem oportunidade de melhor conhecer a produção dos artistas da nossa terra.

É a Usina Cultural Energisa, que cumpre o seu papel na geração de cultura e arte, fazendo dessa honrosa missão um marco de aproximação entre artistas e público.

 

Sobre face, por Gabriel Bechara Filho

No início, o artista da pré-história teve receio de representar a face humana. A Vênus de Willendorf é apenas um desses exemplos que se repetiram por toda a Europa. A primeira face realista representada foi a dos animais. Quando o homem aparece de forma mais nítida, ganha a imagem de um xamã dançando com cabeça de veado. No mundo antigo, a face humana esteve quase sempre representada sob a forma esquemática, como nas culturas do crescente fértil ou idealizadas, como na cultura clássica. A imagem realista do escriba sentado, ícone do Departamento de Antiguidades Egípcias do Museu do Louvre, foi concebida apenas para a escuridão da tumba. Só no helenismo e na arte romana é que o retrato foi apresentado sem receio, expressão de uma sociedade que se laicizava com predomínio de mercadores. O fundamentalismo judaico-cristão e islâmico fez recuar essa via, trazendo de volta a imagem esquemática, quando não, a sua obsessiva proibição, interdição e iconoclastia. Afinal, a imagem do ser singular se reporta à liberdade individual e isso era visto pelos modelos fundamentalistas-totalitários, como um grave perigo, não apenas à tradição, mas ao controle das pessoas e da comunidade como um todo.

O Renascimento resgatou a imagem individual, já presente nos pincéis de Giotto, enquanto o retrato autônomo se afirmava na arte da sociedade burguesa flamenga. O realismo psicológico virou um ponto focal na arte européia, desde então, a ponto do Papa Inocêncio X reclamar de Velasquez: “É troppo vero!”.

Essa busca pela afirmação da individualidade, não apenas das elites, mas também dos mendigos, na arte de Murilo e Ceruti afora os trabalhadores na de Daumier e Millet, dominam o campo visual da arte européia que teria como inevitável consequência a descoberta da técnica fotográfica e com ela, a generalizada imagem globalizada da carte-de-visite. O retrato não apenas a “viralizou”, mas se tornou obrigatório nos documentos de identidade. O velho interdito da iconoclastia deu lugar ao uso obrigatório, até mesmo em países que guardam ciosos o fundamentalismo religioso.

Com a internet e o Facebook, a auto-imagem do selfie tornou-se uma das principais plataformas da mídia. Se o retrato realista apareceu na baixa-antiguidade e no Renascimento como uma reação à dimensão niveladora da sociedade tradicional que desconsiderava a individualidade, em favor da coletividade, o selfie de hoje é uma reação ao anonimato da sociedade urbano-industrial globalizada, igualmente niveladora. Afinal, o selfie pressupõe a retirada de todas as burcas e véus… mesmo quando os neo-totalitários armazenam essas imagens para reaviar o sonho quimérico de querer um dia manipular os homens, como fizeram os “deuses”.

Chico Dantas se debruçou sobre esse último fenômeno. Ele tomou, aleatoriamente, imagens de selfies do Facebook e os recriou a partir do seu olhar. Se o selfie é também uma auto-imagem onde o retratado busca apresentar, de forma seletiva, como gosta que os outros o vejam, os desenhos de Chico Dantas são uma versão irônica e transversal dessas auto-imagens.

O desenho foi sempre o núcleo central da arte do artista, desde os seus primeiros trabalhos, nos anos 70. Nele, a figura humana ganhou uma posição de destaque, logo em

seguida a dos objetos. Mas as que surgem nos trabalhos dos anos 80 são espectrais, flutuam num espaço atemporal como se nos espreitassem numa outra dimensão a que o artista nos facultou a entrada. Essa série que a Usina Cultural Energisa tem a honra de apresentar, traz imagens de pessoas que se mostram na rede virtual da internet.

O artista não se limita a reproduzi-las, ao contrário, ele ousa revelar o que talvez os autores dos selfies quase sempre, pretendem esconder. Os desenhos são retratos de homens e mulheres que se mostram a nós num plano virtual paralelo, ao que os autores buscaram se apresentar. Ora risonhos, ora desconfiados, tristes, irônicos, sonhadores, sarcásticos, reflexivos e descontraídos, os desenhos contornam máscaras que, paradoxalmente, buscam revelar o que se encontra por detrás delas.

Currículo do artista

Chico Dantas é natural de Santa Luzia, Paraíba (1950). Transferiu-se para João Pessoa em 1964 onde vive e trabalha atualmente.

Dirigiu a Galeria de Arte Archidy Picado na Fundação Espaço Cultural da Paraíba-Funesc, em João Pessoa, por 5 anos, no mesmo período em que ministrou cursos de pintura e desenho. Participou de salões de arte e bienais no Brasil e no exterior onde realizou exposições individuais e participou de inúmeras coletivas; dirigiu workshops e ministrou palestras sobre O destino do desenho na era digital e Vídeoarte em suporte digital no Casarão 34, na Usina Cultural Energisa em João Pessoa, e no Centro Cultural Banco do Nordeste-CCBNB na cidade de Sousa, Paraíba. Em 2016 realizou a exposição de desenhos Sobre Face na Galeria de Arte Lavandeira (CCTA/UFPB, João Pessoa). Outras mostras e participações: mostra Diário de Café na Usina Cultural Energisa (João Pessoa, 2014); XIII Mostra do Filme Livre (Rio, Brasília, São Paulo, 2014); Terceira Bienal da Bahia (Salvador, 2014); ministrou a oficina de edição de vídeo O Artista Editor no programa Desafios Contemporâneos/ Funarte na Estação das Artes Luciano Agra (João Pessoa, 2013); participou do XVIII Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC Videobrasil (São Paulo, 2013); recebeu o prêmio Setembro Fotográfico, promovido pela Fundação Cultural de João Pessoa-Funjope (João Pessoa, 2012); premiado no Salão Municipal de Artes Plásticas-Samap (Funjope, João Pessoa, 2012), com o vídeo Especimens II; Em 2011 foi contemplado com o Prêmio Energisa de Artes Visuais (Mídia contemporânea, com o vídeo Terceiros) na Usina Cultural Energisa (João Pessoa, 2012); participou do XVII Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC Videobrasil (São Paulo, 2012); do Festival de Cinema e Vídeo Visões Periféricas (Rio de Janeiro, 2012); recebeu o prêmio Curta Metragem Experimental da Academia Paraibana de Cinema (com o vídeo Alquimia com Livro e Luvas) (João Pessoa, 2010); participou do I Festival de Vídeo da Estação Ciências (João Pessoa, 2010); participou do projeto Pontos de Vista (Basel, Suíça, 2009) com o vídeo Pele-Haut-Peau; da XV Bienal Internacional de Arte de Cerveira (Portugal e Espanha, 2009), com o vídeo Alquimia com Livro e Luvas; realizou mostra individual no Centro de Arte de São João da Madeira (Portugal, 1994); exposições individuais na Galeria da Cooperativa Árvore (Porto, Portugal, 1995 e 2005); realizou exposição individual no IBEU Copacabana (Rio de Janeiro, 1989) e no Escritório de Arte Guilherme Eustáchio (Recife, 1989); mostra individual na Mini-Galeria da Biblioteca Popular de Botafogo (Rio de Janeiro, 1991); prêmio de pintura no Salão Cidade do Recife (Recife, 1982); participou da XVI Bienal Internacional de São Paulo (São Paulo, 1981); contemplado com o prêmio de pintura no II Salão Arte/Universidade (João Pessoa, 1979).