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05/05/2022

05.05 | Exposição Fotográfica “Cores da Feira” por Roberto Coura

A Feira de Coura, por Dyógenes Chaves (Curador)

Roberto Coura surgiu para a arte da fotografia em torno dos vinte anos. E essa era a média de idade dos artistas que se aventuravam nos salões de arte, tão em voga entre os anos 1970 e 80 pelo país afora. Além de revelar novos talentos, outro objetivo dos salões era formar acervo a partir dos prêmios aquisitivos. Ou seja, na medida em que dá o prêmio ao artista, em contrapartida, a instituição que organiza o salão fica com sua obra para o acervo. Ocorre que, há pouco, um renomado crítico de arte fez a observação de que os salões “investiam no escuro”, se referindo aos “prêmios aquisição”. Para ele, como a maioria dos que se inscreviam era de jovens artistas, em início de carreira, grosso modo, nem todos os premiados seriam uma “aposta no futuro” pois até mesmo alguns nem continuavam na profissão. No final, justifica o crítico, o acervo pode não ter importância para a história da arte, embora seja o termômetro para se entender o “sistema da arte” no momento em que o evento aconteceu.

Simples. Coura, ainda muito jovem, já se debruçava exaustivamente no estudo da técnica fotográfica, já vislumbrava uma produção madura, de “gente grande”, notadamente na opção pelo registro documental e apaixonado acerca da cultura popular e da geografia humana de sua cidade natal, Campina Grande. Eram “relatos imagéticos, remetendo à fotografia socioantropológica”, como ele mesmo afirma.

E vem desse seu período “dos vinte e poucos anos” os ensaios fotográficos, hoje reconhecidos como seminais para a compreensão da recente história da fotografia paraibana: O Bairro da Cachoeira (1977), A Feira de Campina Grande (1978), Os Carnavais de Rua (1979-1980) e As Festas Populares de Rua (1980-1981).

A Feira de Campina Grande, exibida no Museu de Campina Grande e no Núcleo de Arte Contemporânea-NAC da UFPB, causou tanta sensação no meio artístico que mereceu do crítico de arte, Roberto Pontual, em texto publicado em revistas e jornais do eixo Rio-São Paulo, o seguinte comentário: “Na Paraíba, mais precisamente no Museu de Arte de Campina Grande, que eu vi, em 1979, uma das melhores exposições a que tive acesso nos últimos dois anos: a do jovem fotógrafo paraibano Roberto Coura, sobre a feira tradicional da mesma cidade.” Então, Coura já se destacava numa época de deslumbramento da fotografia pelo país. Na Funarte, no Rio, em museus e galerias de São Paulo e no NAC, na Paraíba, pipocavam seminários, cursos, exposições nacionais e internacionais e até surgia um modesto mercado de arte para a fotografia. Roberto Pontual, evidenciando o fato, disse que “a revista Veja pôde tranquilamente dizer, numa matéria de capa em fevereiro [1979]: nunca se fotografou tanto no Brasil”.

Logo depois, em 1988, de tão contundente enquanto ensaio fotográfico, a Feira de Campina Grande foi assunto abordado por Pedro Vasquez, fotógrafo e um dos importantes estudiosos da fotografia no Brasil, em conferências na State University (Novo México/EUA) e na Universidade de Fortaleza. Mais recentemente, em 2014, Coura resolveu “atualizar” seu olhar sobre a Feira e produziu a mostra Cores da Feira, agora em equipamento digital e em cores, que resultou em publicação comemorativa ao Sesquicentenário de Campina Grande.

Enfim, a realização da presente mostra Cores da Feira era um desejo dele verbalizado num encontro na Usina Energisa, em fevereiro de 2020. Imediatamente agendamos a exposição para outubro com o objetivo de homenagear sua cidade, Campina Grande, em seu aniversário. Mas as restrições impostas pela Covid-19 nos fez adiar o projeto. Agora, felizmente, estamos apresentando 90 obras (fotografia em cores) daquele ensaio Cores da Feira 2014.
A mostra agora, além de homenagem à Campina Grande é toda dedicada à memória e à produção de cinco décadas desse genial fotógrafo Roberto Coura. Além de tudo, para nós, seus amigos e admiradores, este ato se reveste de muito carinho e saudades.

Sobre Coura e sobre a Feira, por Márcio Caniello (do livro Cores da Feira 2014)

Trinta e seis anos após publicar seu memorável ensaio fotográfico sobre a Feira Central de Campina Grande, Roberto Coura revisita o cenário de barracas, bancas, pedras, lonas, mercadorias, artes, ofícios, homens e mulheres para surpreender-lhes as cores, as mudanças e as permanências. (…) Assim, este novo ensaio nos convida, inevitavelmente, às comparações. (…)

Agora, frente às mudanças que registra, o olhar do artista vem temperado com uma pitada de ironia e graça, algo inexistente no ensaio cruamente realista de 1978. É o que vemos, por exemplo, nas divertidas fotos de manequins entremeados a estivas, cereais, bugingangas eletrônicas, utilidades domésticas, carnes e outras mercadorias que, estáticos, parecem observar uma feira mais caótica, mais carnavalesca. Assim, com bom humor, o fotógrafo parece advertir os fundamentalistas patrimoniais de que a feira, como qualquer fato da cultura, é, sobretudo, um organismo dinâmico que se reinventa sob as circunstâncias do tempo e as transformações do mundo. Como tudo que é humano, também a feira move-se numa espiral dialética que une o passado ao presente, evidenciando mudanças, mas renovando, sempre, o seu espírito essencial.

De fato, o cenário retratado por Coura em 2014 revela muitas mudanças, como esta, a dissolução dos antigos setores em favor da feira misturada. Mas há outros temas que podem ser explorados: (…) a invasão dos plásticos; o aparecimento dos produtos eletrônicos; a ampliação e disseminação da feira de roupas; o completo desaparecimento dos balaieiros e a substituição dos balaios pelas carroças de construção, estorvo para a mobilidade dos passantes; o artesanato com suas permanências e mudanças, entre as quais ressalta, sensível e lamentavelmente, o declínio da cestaria.

Algumas fotos aproximadamente do mesmo ângulo das publicadas, revelam a degradação das estruturas do Mercado, já combalidas em 1978, mas reafirmam realidades perenes como, por exemplo, o clima medieval da feira de carnes e peixes, que se afigura, em cores, mais degradada e menos pungente. (…)

A cena humana revela-se perdurada, da mesma maneira profusa e comovente, como na década de 1970. Um casal que baila. A florista que por pouco não se confunde com as flores. Cantadores com o mesmo prato sobre a mesa (mas também com DVDs à venda). Uma cozinheira fazendo buchada. Barbeiros e cabeleireiras. Vendedores e vendedoras. Compradores e compradoras. Uma modista. (…) E muitos velhos, cujas imagens parecem sintetizar a grande mensagem deste ensaio: o povo da Feira continua o mesmo.

Cores desse universo feérico, por Wagner Braga Batista (do livro Cores da Feira 2014)

Com o ensaio (e livro) Cores da Feira 2014, Roberto Coura nos oferece uma nova visão da Feira Central diversa do registro documental de 1978. Com olhar renovado e atilado, brinda-nos com repertório de imagens que destaca aspectos singulares desta edificante paisagem humana. Permite-nos cortejar duas abordagens distintas: o primoroso registro em preto e branco com a profusão de cores que jorram deste novo ensaio da atualidade da feira, realçadas com recursos digitais, inimagináveis à época em que realizou suas primeiras fotos. Por meio destes registros aprimora sua perspectiva original, fornecendo densidade à apreensão do universo feérico.

Somos umbilicalmente ligados ao universo feérico. Andanças em feiras são marcantes em nossa vida. Como flâneur por vocação, avessos às latitudes do tempo, aventuramo-nos a perseguir trilhas longevas nos rastros deixados pelas fotos de Roberto Coura. Suas imagens da Feira Central varrem décadas. Transgridem a incondicional trajetória da razão e desvarios de fantasias coletivas. São compromissos inconfessos com o presente e com a exuberante cultura dessa cidade Campina Grande. Perpetuam estranhamente, alegrias e solidões irreparáveis dessa gente humilde que transita e se vê abrigada em seu solo. Marcam territórios, aparentemente insondáveis, com inconfundível cheiro de lembranças, humores e hromônios deixados por seus habitantes nos rastros pela feira.

Currículo do artista

Roberto Coura. Campina Grande, Paraíba (1954-2021). Adolescente, ingressou na Escola de Artes do Professor Jorge Miranda, para estudar desenho artístico. Foi colaborador do Museu de Arte Assis Chateaubriand por vários anos. Como artista plástico, realizou exposições individuais e coletivas na Paraíba e em outros Estados. Em 1971, começou a comprar revistas e livros técnicos de fotografia. Em 1972, abandonou as artes plásticas para atuar como fotógrafo. Entusiasmado e cheio de vontades passou a produzir relatos imagéticos, remetendo à fotografia socioantropológica, que até hoje é a raiz do seu trabalho de fotógrafo. Porém, com o passar dos anos outras vertentes foram surgindo: fotografia arquitetônica; fotografia de produto e de obras de arte; publicidade, moda e retrato; além de pesquisas na computação gráfica, gerando daí gravuras eletrônicas. Ensaios desenvolvidos em Campina Grande: O Bairro da Cachoeira, 1977; A Feira de Campina Grande, 1978; Os Carnavais de Rua, 1979-1980; As Festas Populares de Rua, 1980-1981; Cores da Feira, 2014. É designer gráfico e graduado em Desenho Industrial. Em 1979 é contratado como professor de Fotografia (DART/UFPB, Campina Grande). Em 1990 se transfere para o Departamento de Arquitetura (Centro de Tecnologia/UFPB, João Pessoa), onde ministra aulas até 2012, quando se aposenta. O ensaio A Feira de Campina Grande obteve o prêmio Marc Ferrez de Fotografia (Funarte/ Infoto, 1980). Convidado para o I Seminário Nacional do Ensino Superior de Fotografia, onde apresentou o trabalho A Fotografia aplicada ao Desenho Industrial (Unicamp, Campinas/SP, 1984). Membro da comissão de seleção do livro I FotoNordeste (Funarte/Infoto, Fortaleza/CE, 1984). Citado (e com imagens projetadas da Feira de Campina Grande) pelo fotógrafo e crítico Pedro Vasquez nas conferências Contemporary Brazilian Photography (State University, Novo México/EUA, 1988) e Desenvolvimento da Fotografia no Brasil (Unifor, Fortaleza/CE, 1988). Primeiro lugar no concurso nacional (área de engenharia) Brasil 500 Anos (Confea, 2000). Colaborador dos livros Visões e alumbramentos: fotografia contemporânea brasileira na Coleção Joaquim Paiva, de Joaquim Paiva (Brasil Connects, São Paulo/SP, 2002) e OPEN – Fiteiro Cultural, de Fabiana de Barros (Sesc/SP, 2005). Fotógrafo e editor de fotografia do livro Chico Ferreira (João Pessoa, 2008). Livros publicados: A Feira de Campina Grande 1978 (Governo da Paraíba/UFCG, 2007), Imagens & Poemas, em parceria com o poeta Amador Ribeiro Neto (EdUFPB, João Pessoa, 2008), A Feira de Campina Grande 1978 e Cores da Feira 2014, publicação conjunta comemorativa dos 150 Anos de Campina Grande (Prefeitura de Campina Grande/Seplan, 2014).

O que: Cores da Feira, individual póstuma do artista e fotógrafo paraibano Roberto Coura (1954-2021)
Como: 90 obras (fotografias em cor) produzidas em 2007
Vernissage: 05 de maio (quinta-feira, 19h)
Até 05 de junho de 2022, de terça a sábado, das 13h às 18h
Onde: Usina Cultural Energisa (Rua João Bernardo de Albuquerque, 243 – Tambiá – João Pessoa-PB)
Curadoria: Dyógenes Chaves (98808.7877)

Realização: Secretaria Especial da Cultura/ Ministério do Turismo (Lei Rouanet)
Patrocínio: Energisa Paraíba

Obs. Artista convidado no Edital de Ocupação da Usina Cultural Energisa 2019-2020. Exposição póstuma em comemoração ao Mês do Artista Visual na Usina Cultural Energisa.

Contatos:

fones: 83 99823.4986 (Pedro Coura, filho)
www.usinaculturalenergisa.com.br
www.usinaocupacao.com.br